Crítica | Filme "Hereditário"

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"Hereditário" é considerado por muitos um dos filmes mais assustadores de sempre e há quem lhe chame "O Exorcista" da nova geração.


Ao longo dos anos, o género do terror tem sofrido altos e baixos, certamente com mais baixos do que altos, contudo “Hereditário” é o reforço que este género estava a precisar, sendo por muitos considerado como “O Exorcista” da nova geração. Ari Aster faz um trabalho exemplar como realizador do filme, conseguindo conciliar cenários trágicos e chocantes com uma história intensa e perturbadora e um elenco irrepreensível. Devo dizer que sou um grande fan da atriz australiana Toni Collette, desde o filme “The Way Way Back”, contudo, não haja dúvidas que o auge da sua carreira, até ao presente, foi atingido através do papel que a atriz desempenha em “Hereditário”.

O filme retrata a evolução de um drama familiar, potenciado por acontecimentos de natureza sobrenatural, após a morte da avó materna, cuja demonstrava um interesse obsessivo e estranho pela sua neta Charlie. Annie, a filha da falecida, começa a investigar o passado desta, agravando o destino que a sua família herdara após o trágico acontecimento. 
Durante 127 minutos, “Hereditário” cumpre o objetivo de manter o espetador sempre interessado no seu enredo, desde o funeral da sombria mulher que era a mãe de Annie até ao grande e aterrorizador final do filme. A densidade do terror psicológico aumenta gradualmente com o desenrolar dos acontecimentos, sendo fomentada pela expressividade e talento de Toni Collette que oferece uma prestação digna de óscar como Annie Graham. Outro ator que merece grande destaque é Alex Wolff que desempenha um papel com uma enorme carga emocional, mas que demonstra estar sempre à altura do desafio, conseguindo transmitir todas as suas emoções para o espectador, transportando-o para dentro do grande ecrã e convidando-o a entrar na pele do seu personagem.  
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Um dos aspetos mais bens conseguidos do filme é a alternância da inquietante trilha sonora, que nunca nos permite prever uma possível ocorrência de jumpscare, com o silêncio utilizado em algumas das cenas mais intensas do filme, como numa das cenas iniciais em que Annie apaga a luz da sala onde estava a realizar um dos seus projetos e vislumbra o vulto da sua sombria mãe falecida enquanto esta a fixa com o olhar.

O filme atinge o seu ápice na última cena, que compila todos os elementos mais assustadores que nos vão sendo apresentados desde o seu início e permite ao espetador perceber todo o conceito do filme, e o porquê do seu título. Esta foi uma excelente jogada da parte de Ari Aster, pois num filme que opta, em grande parte do seu tempo, pelo silêncio e pela inexistência de diálogo, é fácil que o espetador perca o foco, o que não se verifica aqui, tendo em conta que o facto das respostas apenas serem dadas no final permite ao espectador manter a curiosidade durante todo o tempo de execução.

O argumento de “Hereditário” é bastante sólido, não existindo qualquer tipo de plot holes durante o filme. A sua simplicidade resulta na perfeição e permite-nos conhecer bem as personagens, os seus problemas e perceber melhor a narrativa, embora julgue que seria de louvar, caso tivesse sido possível acrescentar ao filme alguns acontecimentos mais imprevisíveis e que conseguissem surpreender o espectador com alguma revelação que este não estivesse à espera e que conduzisse a uma reviravolta em termos de enredo, o que é uma virtude que admiro bastante nos filmes de terror, e que considero estar aqui em falta.




“Hereditário” tem uma outra característica que o torna peculiar em relação à grande maioria dos filmes do mesmo género, que é o facto da sua história bem escrita, inteligente, organizada, soturna e trágica ser suficiente para perturbar psicologicamente o espetador e conseguir causar-lhe o medo, não necessitando de recorrer ao jumpscare para surtir tal efeito, o que é uma proeza que infelizmente é invulgar hoje em dia e a qual eu já não experienciava de forma tão bem conseguida desde o filme “The Others”, com a prestigiada Nicole Kidman.

No final de contas, “Hereditário” é um filme original que nos transporta para um ambiente lúgubre e que é bem capaz de afetar psicologicamente os seus espectadores quer com imagens sangrentas e memoráveis, quer com acontecimentos aterrorizantes e que se tivesse mais twists and turns e algumas revelações inesperadas, poderia ser considerado uma obra-prima do terror moderno, embora evidencie claramente características à old school.


Rating: 80%

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